quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

De poetas e de poemas

Por Jayro Schmidt



Jorge de Lima é poeta de pouca receptividade no caminho desbravado pela Semana de 22. Simplesmente por ter se desviado das coisas mais terrenas com as soluções magistrais dos modernistas em suas primeiras horas e no prosseguimento com o coloquial, poetas do prosaico sem que tenham caído na armadilha de uma escrita prosaica. Jorge de Lima é praticamente um poeta isolado por ter reverberado a transcendência, e com um lirismo dramático que o situa em uma esfera ao mesmo tempo exígua e extensa, na qual o tempo recebe um corte que origina outro tempo, o da linguagem.
Esta linguagem, que beira o subliminar, procede de um ramo arcaico – ibérico e barroco – porém ramificação que se estende para fora de si, revisando-se e atualizando-se. Incomum é essa poética no cenário da poesia brasileira e que inaugura de forma efetiva a metalinguagem ou a intertextualidade como preferem os acadêmicos. Até hoje se discute sobre os mistérios da poesia do inventor de Orfeu, quando o mais significante nele foi o deixar-se contaminar por precedentes, tais como Virgílio, Dante, Milton, Camões e outros, como também os escritos bíblicos. Aliás, muitos trechos bíblicos são transmissões por legendas, sentenças e divisas aperfeiçoadas pelos escritos. Os apócrifos, em muitos casos, foram mais longe neste sentido. Diria que Jorge de Lima é um poeta apócrifo em termos de releitura da poesia sob o influxo do metamoderno. Um poeta que caminha para trás enquanto avança para o futuro por volição do que foi dito e que o prepara para dizer por outras vias como se lê em Invenção de Orfeu. Ao apropriar-se de poetas de sua preferência, Jorge de Lima livra-se do débito da influência, traduzindo-os para a formação de seu paideuma. Uma das colagens mais conhecidas é a alusão a Virgílio.

A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.

O poema de Jorge de Lima, publicado em 1952, lembra os mistérios e narra com linguagens diferentes, mutantes nos dez cantos, a fundação de uma ilha, empreitada de um “barão assinalado, sem brasão, sem gume e fama”, reverso de Camões. Um Orfeu despojado, mas saturado de memória que seu fluxo de consciência traça em pesadelo lírico. Poema de uma noite insone, na qual as imagens são velozes em contraste com a lentidão noturna. Sem proteção e posse, o barão funda-se na fundação da ilha. Tanto melhor assim, eco do Satã de Milton, que ao cair para fora de si no solo, fundou o inferno. Por falar em imagens, Jorge de Lima depurou-as no entrecruzamento de poéticas e chegou a conceber um álbum de fotomontagens, em 1943, A pintura em pânico. Imagens em camadas sucessivas e expropriadas da função fotográfica inicial assim como, por índices e símbolos, os grifos nas palavras.

Para a unidade deste poema,
ele vai durante a febre,
ele se mescla e se amealha,
e por vezes se devassa.

Jorge de Lima, para Mário Faustino, é “um pequeno poeta maior”, porém o “nosso único poeta maior”. Pequeno se comparado com poetas de línguas europeias, maior se comparado com poetas brasileiros, alguns deles rejuvenescidos por Rilke.
Deve-se a estes poetas o que se deve aos amantes de mistérios. Transparências em transparências por impulsos elegíacos, nos quais Rilke era versado com as metáforas do anjo e do animal, figuras recorrentes na poesia nórdica, sobremaneira em Trakl.
Em carta a Ficker, amigo e protetor de Trakl, Rilke pergunta: “quem poderá ter sido?” Rilke havia descoberto os poemas do austríaco e, deslumbrado por sua voz evocativa, queria saber sobre a pessoa. Mesmo tendo notícias sobre ele, continuou com essa impressão, pois Trakl está em sua poesia como uma sombra, a sombra do poema de Else Lasker-Schüler, musa dos expressionistas: “Sua sombra permaneceu sem explicação / no entardecer do meu quarto”.
Durante os combates da Primeira Guerra Mundial, hospitalizado, Trakl tentou o suicídio pela primeira vez; na segunda tentativa, morreu com uma superdose de cocaína, aos 27 anos. Formou-se em farmácia e foi dependente de narcóticos, assim como sua irmã mais nova, Gretl, por quem devotou grande paixão. Atribui-se a ela um forte temperamento “e a decidida condução da relação incestuosa” com o irmão. Gretl é uma das constantes imagens em Trakl. Outras são as dos anjos e das cores, principalmente o azul, cultuado pelo romântico Novalis: “Desejo ver a flor azul. Ela não abandona a minha mente, e não posso escrever e pensar em outra coisa”.
Trakl: olhos azulados, pálpebras azuis, do azul em ruínas surge às vezes um corpo sem vida, a figura azul do homem passava em sua lenda, uma borboleta azul saía da crisálida prateada, o azul de meus olhos apagou-se nesta noite, manto azul, lago azul, cristal azul, água azul no fundo da rocha, santidade de flores azuis, do azul em decomposição apareceu a pálida figura da irmã, abrem-se azuis os olhos-papoula de um anjo, anjos cristalinos, anjos com asas sujas de excrementos, anjo brônzeo, anjo rosado, um anjo devagar aparecia à criança, quando na sombra de Sebastião expirava a voz prateada do anjo, anjo decaído, anjos de fogo, anjo com dedos de cristal, anjos malditos.
Silêncio, sonho, melancolia e morte permeiam a sua obra. Rilke: “tenho a sensação de que, mesmo para alguém próximo de Trakl, essas perspectivas e visões só aparecem como se através de vidros, como se excluído delas: pois a experiência de Trakl é como uma sucessão de reflexos e preenche todo o seu espaço, inacessível qual o espaço do espelho”.

Na passagem do sol leio o místico Trakl,
poeta do azul, poeta azul.

Passagem por sua lenda fulgurante
no seio da irmã, face de flor que amou.

Sem receio velava o sonho,
rosto abandonado no véu do entardecer.

E ele disse, anjo cristalino:
assustador é o declínio da raça.

Que a tempestade acaricie tuas pálpebras
e não desfaça teu nome na estrela.

A tese de Mário Faustino exprime a grandeza inventiva em poetas de exceção, inclusive os chamados bissextos. São poetas que precisam escrever e constroem suas vidas de acordo com essa necessidade como diz a primeira carta de Rilke ao jovem Franz Xaver Kappus. A essa tese, por conseguinte, se coloca outra e controvertida: se o poema é algo que não se pode evitar, o poema surge, o poeta foi o meio. Eis um capítulo vastíssimo, o transe de alguém por outrem. Talvez, pensam outros poetas: o poema é feito, elaborado. Duas vertentes que acabam se encontrando pelas forças magnéticas que exercem entre si. O poema que surge geralmente é situado como obra do acaso, do aleatório, evitado por uns e, por outros, deliberado experimento. Em ambas as situações não faltam poemas-limites. É isso, então. Há limites que os poetas querem transpor com ou sem acaso. Um fragmento de C. Ronald situa os limítrofes a que me refiro.


deves voltar
deixando o começo
igual digamos à duração
flexível de um astro

Versos sob medida do desmedido. O poeta alude à ordem incontrolável, que independe do humano, descondicionando-se como tal para que possa dizer: ao poema o que é do poema. O que é do poema é a necessidade, dizia Rilke. O necessário para C. Ronald é o “acaso dirigido”, descrito como “aparato formal existente e a intuição no meio de realidades preestabelecidas a partir da razão como, por exemplo, a leitura de uma frase ou de uma idéia capturada num relance ao folhear-se, digamos, uma enciclopédia”. Um método que rearticula memória e imaginação, continuidade e descontinuidade da consciência. O “acaso dirigido” articula, na luta do poeta com as palavras, a natureza subjacente de sema, termo de origem grega que é signo e sepultura. De tanto trabalhar com o acaso, o poeta é trabalhado por ele em repercussões poemáticas que exigem uma segunda leitura, esta com os olhos periféricos para, pelo menos, reunir alusões que abrangem a arte, a filosofia e a ciência, trilogia perpassada pelo absoluto e pelo relativo às vezes sob o dilema do humano e da divindade. A procedência de cada alusão é para o leitor, em sua maior parte, desconhecida no frêmito do poeta ao escrever, que é um ver em si e em todo o panorama oferecido pelas imagens impressas e digitais. Uma poesia virtual com os fragmentos que a compõem, cada um deles como um todo constelar, molecular. Devo ter dito, no breve ensaio escrito sobre C. Ronald, que a nominação semiótica é cambiante na consciência como duração zootrópica de imagens entre silêncios. O “acaso dirigido” relaciona-se com a escolha estocástica, naturalmente sem o rigor matemático de Markov, porém como propriedade que já faz parte da inventividade contemporânea. Diria até que os poemas de C. Ronald são quânticos: compõem um grande poema por extensão de suas partes.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Convergências

Cruz e Sousa e Carlos Drummond de Andrade



Nunca se cala o Calado
E sempre o Calado, fala
Calado que não se cala,
Nunca se cala o Calado,
Calado sem ser calado,
Calado que é tão falado...
Nunca se cala o Calado
E sempre o Calado, fala.

Cruz e Sousa, publicado em O Moleque, 1885


CONVERGÊNCIAS

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra...

Carlos Drummond de Andrade, publicado na Revista Antropofágica, 1928


(Publicado no jornal de cultura Ô Catarina)



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Imagem e palavra

Vários autores


Fotografia de Gill Konell



Lagoa de pedra

Contorno Geométrico
Del fósil sinuoso de jaspe
No hay veneno em la palavra
Que pueda adormecer
El destino triunfal de la cobra

Daniel Ballester


tudo preocupa nada
nada tudo preocupa
preocupa nada tudo

Elaine Pauvolid



UMA OVA!

na pele do óvulo, na casca dura e escura da pele do óvulo, antes do óvulo virar ovo (ou zigoto),  sendo só o óvulo-óvulo ou o óvulo só e só assim sendo, sem que mais nada aconteça pra que deixe de ser só isso acontecendo, de óvulo querer ser só óvulo ­- (e isso é ser óvulo) - querer ser só óvulo e nada mais, nada mais externo que o torne outra coisa, - (a partir daí já não sendo mais óvulo) - e sabe-se lá o que um óvulo já não mais óvulo pode se tornar nesse vasto mundo oval, só e somente só sendo ainda só óvulo: somente semente sem vida, semente sem ida ainda e nem vinda, somente só e se nada o desviar de seu destino ovóide: nem um e nenhum percalço; nem uma e nenhuma piscadela; no sim do não e no não do sim; aí, sim: o óvulo gora, o óvulo nunca vai ver o agora, o óvulo não vê a hora, o óvulo não ouve a hora, o óvulo não houve, oras, o óvulo vai embora, o óvulo descora e evapora: murcha e apodrece e desce e desaparece no fosso oco do corpo quente até as trevas do não-ser... de per si; depressa; deprecia; recessa; cessa: o óvulo já era!
já o esperma permeável permanece perdido seco no solo do útero anterior e ulterior no interior das tripas um trapo por não ter cumprido o trato e o fato de poder ter sido e não. não dessa vez ainda não - punho e punheta - como sendo. breve secará também, sem mais nem amém, tudo não passando disso, só isso no isso tudo, no tudo isso, tudisso, isso, iss, is, i!
noutro lugar mas no mesmo se escuta o esborrachar de gotas no chão do banheiro e um aroma de amoras e amores evolando e voando e andando e alando e indo no ir do-ar enquanto do quarto ao lado mas não alado vem um cheiro forte de suor fedor e cigarro.

Vinícius Alves


Imagem e palavra foi uma proposição, a foto de Gill Konell, aos poetas, cada qual com suas visibilidades imagísticas nos poemas.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Iconografia urbana

Xilogravuras de Chico Marinho




Chico Marinho, gravador na melhor acepção do termo, tem uma percepção crítica acerca das desagregações na vida urbana que, em vários aspectos, beiram o catastrófico. É por isso que suas imagens perfilam mundos paralelos e antagônicos. (J.S.)


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

No limite

Por Jayro Schmidt


O filme Limite é uma raridade na cinematografia brasileira por ser cine-poema, escrito com o impacto de uma visão do autor, Mário Peixoto, ao passar por uma banca de jornal em Paris, quando a imagem estampada na capa de uma revista fez irromper de sua mente o que seria o filme, um poema de imagens, cujos fotogramas podem ser lidos como se formassem uma longa e enigmática frase visual.
Todas as imagens do filme são reconhecíveis, embora paradoxais uma vez relacionadas entre si com fusões que são a própria narrativa que exige do receptor uma disponibilidade imaginária para assimilar o sentido vislumbrado por Mário Peixoto na foto da revista, os punhos algemados de um homem e a mulher entre seus braços.
Havia algo em Mário Peixoto, um conflito de ordem familiar, algo que já havia acontecido e que agora, no dia da banca de jornal em 1929, encontrava as imagens de uma imagem que o fez estremecer no conflito com o pai, do qual não se conhece detalhes, somente indícios no filme e no livro que posteriormente escreveu, O inútil de cada um, retomado com o exemplar salvo do ódio de seu pai, que comprou toda a edição, queimando-a.

  

A foto da revista “Vu” fez reboar em Mário Peixoto, em suas palavras, “uma coisa meio secreta”, e teve a visão de “um mar de fogo, um pedaço de tábua e uma mulher agarrada”. O filme inicia e termina com um píncaro e aves em sobrevoo, mas, no final, no auge do desespero de Olga no barco perdido no mar, a linha do horizonte oscila e se funde com vagas ao som de Prokofieff, a tempestade: choque de vagas, turbulência e repouso, vaga corre, refluxo, turbulência, retorno da vaga, e assim por diante até reaparecer o horizonte marinho oscilante, aos poucos a aproximação de Olga agarrada à tábua.



Em todas as vezes que assisti Limite, a plateia ficou em total silêncio, imobilizada, e ainda por alguns minutos após o término das projeções. Teria acontecido com tantas pessoas o que havia acontecido com Mário Peixoto durante a visão, o sentimento de uma “extrema limitação”? Mais tarde ele explicou que o título do filme somente poderia ser este, “limite”.
A fusão de imagens predomina no filme em recuos e avanços cênicos que Mário Peixoto filmou com analogia de formas. Além de ter favorecido tempos não-lineares, o recurso da câmera-memória conferiu à sua intenção cinematográfica uma lógica da linguagem quando se apreende que o sentido de uma imagem depende do sentido de outra imagem. O campo do visível, assim, suscita o campo do legível, pois no desfazer-se de uma imagem com o fazer-se de outra, vemos em suas aparições o que narram como propriedades específicas das palavras, apesar do filme estar longe do literário. As imagens uma vez vistas provocam as palavras que estavam submersas e que a intuição poética teve o dom de provocar.
Foi a visão que ditou o roteiro, e o recurso da fusão não seria suficiente se a montagem não tivesse sido o que foi para fazer de Limite um filme extraordinário. Octávio de Faria comenta que Mário Peixoto não esqueceu a lição de Léon Moussinac: montar um filme é ritmar um filme. O ritmo, que faz com que as imagens se correspondam, esteve presente o tempo todo na filmagem e em cena por cena uma vez montado como duração. Octávio de Faria acrescenta que o filme foi rigorosamente planejado, não sendo, então, uma descrição de um roteiro, o que comprova outra vez que uma obra de arte surge e é feita. E ainda não foi realizado nenhum estudo acerca dessa duração cênica em relação à trilha sonora, imagem e som em perfeita sintonia.
O filme de Mário Peixoto foi lançado no Rio de Janeiro, em 1931, e, mais tarde, foi visto em Paris por alguns cineastas revolucionários e extraviado, ou esquecido. Reencontrado por Saulo Pereira de Mello, por ele foi restaurado e publicado como mapa do filme em fotogramas que disponibilizam detalhes estéticos da câmera deslizando e se fixando com tempo suficiente para que a vertigem invada o olhar e a consciência. Um filme considerado como estética da natureza ao abstrair da imagem o lugar-comum, o pitoresco, o que é o mínimo na imaginação de Mário Peixoto. O máximo é a sua capacidade poemática de transbordar o todo em suas partes através da iconografia, o que fez da estética uma semiótica da estocástica inicial, que foi a visão que o levou ao roteiro e deste à realização cinematográfica.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Mitologia do artista (Joseph Beuys)

Redação do blog



O artista alemão Joseph Beuys (1921-1980) juntou vida e ficção da vida, criando a sua mitologia artística. Nasceu, conforme suas palavras, “de uma ferida contida com esparadrapo”. Estudou medicina, sobreviveu a um desastre de avião, sendo curado com feltro e gordura animal por nativos. Ao retornar à civilização, “enfrentou uma crise profunda, familiar a todos os grandes artistas, que lhe permitiu elaborar os princípios básicos de sua arte”.
Além de realizar a plenitude da arte do reanimar, Joseph Beuys deu voz à outra de suas vocações, a pedagogia através da palavra dita e escrita. É que ele acreditava na potencialidade humana para a arte, perdida, oprimida, desviada por tantos fatores. Foi assim que levou a efeito a natureza própria do pedagogo, que é aquele que mostra o caminho do saber, formulando seus ensinamentos como postulados da reversão. Reversão por evitar o ensino tradicional da arte com os habituais e inibidores meios técnicos e estéticos.
O primeiro postulado diz respeito à presença do artista em ação comportamental, expondo suas ideias como obra da fala; o segundo postulado refere-se à perda de sentido existencial e de conhecimento essencial, propondo o retorno ao saber elementar; o terceiro postulado é uma estratégia reflexiva sobre o ensino que, ao ser proferido, torna-se uma lição que deve ser propagada: qualquer pessoa pode ser ensinada e fazer o mesmo. (J.S.)


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Companheiros Psíquicos

Por Jayro Schmidt



Desde sempre, tenta-se provar que fantasmas existem.
Pois bem, eles existem. Todos têm os seus e algumas pessoas dão forma às fantasmagorias. Afinal, fantasma e fantasia andam de mãos dadas.
Quem não viu ainda essas coisas sem matéria, espectrais vamos dizer, mas que são nossos companheiros psíquicos?
O poeta português Fernando Pessoa estava fascinado, e também decepcionado, com Esteves por não ter metafísica.
Conclui-se que Fernando Pessoa queria, mas não podia livrar-se dos fantasmas, em seu caso os heterônimos que deram voz à sua mente povoada de paredros, essas criaturas que aconselham e guiam.
Querendo ou não, ninguém vive sem fantasmas, que são necessários e participam de maneira ativa na formação da vida desde que aparece no ventre. Aliás, por falar nisso, o feto é um dos mais perfeitos fantasmas que se conhece.
Podem-se fazer tantas coisas ao longo do tempo, porém, o que de fato se faz é elaborar os fantasmas para que possamos conviver com o desconhecido, com o estranho.

Desenho de Luis Viderbost

Além de espectro e paredro, mais duas palavras dizem tudo sobre matéria tão sutil: eidola, a imagem-fantasma, e pareidolia, a manifestação do fantasma.
Inumeráveis são suas presenças em todas as artes, todas provenientes de constatações pessoais que ampliam o campo relacional entre imanência e transcendência. Para ilustrar, comento fantasmagorias de Kafka e Munch.
A imagem-fantasma permeia toda a obra ficcional de Kafka e, para tantos outros autores, ele foi e tem sido um fantasma. Dentre as suas visões nesse sentido, é saborosa a dos limpadores de chaminés, trabalhadores comuns na Europa de então. Visão infantil, nos quais via demônios que mais tarde associou aos dilemas do nascer e do morrer, mais do morrer que exprimiu numa frase que continua causando perplexidade:

Estar morto, isso significa para o homem o mesmo como o domingo para os limpa-chaminés: lavam-se da fuligem.

Tais demônios prolongaram-se em sua mente adulta permeável aos espectros, que são figuras mitificadas que serviam à educação pelo temor que causa e que vivificava toda a literatura fabulosa do norte europeu.
Não menos alucinatória é a obra de Munch, especificamente o espectro que grita, pintura que se reportou a uma experiência também subliminar quando andava com dois amigos no crepúsculo da tarde. Próximos a uma ponte, o pintor sentiu grande tensão e não pode caminhar mais. Foi então que viu as nuvens cobrindo-se de sangue, e ouviu um grito ou um gemido que bem conhecemos através do fantasma que pintou.

O grito, Munch

Por estas, e por outras, não é à toa que Leonardo da Vinci recomendava a seus poucos alunos que olhassem uma parede envelhecida por longo tempo, até que surgissem imagens que, na realidade, são provocadas por certas disposições psicofisiológicas.
Talvez Leonardo da Vinci tenha refletido sobre a necessidade de fantasmas, pois ele acreditava, apesar de todo o seu empirismo, na imaginação. Fantasmas como companheiros psíquicos, como são os gatos, que não se aproximaram dos homens por causa dos ratos que se aproximaram por causa dos grãos.
Pelo menos era assim que pensavam os Maias e os Astecas.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Monstrinhas (03)

Por Kelly Kreis Taglieber



Memórias da menina gravada – livro da artista


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Êmulo (Cruz e Sousa)

Redação do blog



O poeta Cruz e Souza nasceu na antiga Desterro, 1861-1898, hoje Florianópolis. Foi ponto de teatro, como se isso reafirmasse a sua invisibilidade numa época em que predominava a pseudociência positivista que procurava provar que os afrodescendentes não tinham capacidade intelectual. A acanhada vida literária na província motivou a ida de Cruz e Sousa para o Rio de Janeiro, naquela época cenário de consideráveis mudanças que deixavam à vista dois regimes paralelos e antagônicos, o da monarquia capenga e o da república incipiente. O poeta de Desterro foi um dos principais ativistas de liberações, do abolicionismo especificamente, que levou muito tempo para sair do papel. Com aguda percepção relacionada com problemáticas existenciais, Cruz e Sousa chegou a dizer que não discutia pessoas, porém ideias. E tais dilemas ele condicionou no símbolo, animista e místico tal como vinha expandindo-se na França com Mallarmé e seus epígonos, a ponto de Roger Bastide dizer, muitos anos depois quando esteve no Brasil, que sua poética evocava “uma busca espiritual”. Cruz e Sousa, ao representar a emulação de uma época, foi um dos fundadores da poesia moderna em língua portuguesa. (J.S.)



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Supremas

Fotografias de Gill Konell


clique nas imagens para ampliar










O olhar fotográfico de Gill Konell faz determinadas escolhas, todas reflexivas. E isso implica, nas imagens obtidas, dizer um sentido através de outro, o que leva à metáfora ou, mais objetivamente, à metamorfia –  transformação de uma coisa em outra, e ao analógico – relação de semelhança entre coisas diferentes. (J.S.)


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Limerique

por Jayro Schmidt


O termo limerique é um neologismo e nomeia breves poemas de cunho humorístico que cativou o inglês Edward Lear (1812-1888). Na apresentação de Um livro de nonsense, com tradução de Vinícius Alves, Dirce Waltrick avisa que não se sabe ao certo como surgiu, provavelmente do refrão Will you come up to Limerick? que os alegres beberrões irlandeses e ingleses costumavam entoar.
Sem ser irlandês ou inglês, mas tão alegre como eles quando molhavam a palavra, Vinícius Alves, com algumas gotas de engasga gato, nos brindou com mais de 50 limeriques, traduzidos e adaptados e com as ilustrações do autor, pois Lear foi desenhista e pintor.



Havia uma Menina nas Bahamas,
Que pescou um peixão sem escamas:
Quando levantou seu caniço,
Ela exclamou: “Que coisa mais louca!
O meu peixe já veio sem roupa!”


Havia um Velhinho em Berlim,
Mais magro que o meu dedo mindim,
Até que num dia errado,
À massa ele foi misturado,
Pelas doceiras que faziam quindim.

Logo nota-se que Vinícius Alves, com o mindim e o quindim “traduzadaptou” do mestre Guima. Aliás, no último limerique do livro, ele fez a coisa “a la Guimarães Rosa”, que ao escrever já traduzia, quero dizer, transluzia.


A cara e o Cara e a coruja, uja,
Lambuzaram-se e ainda de lambuja
Sessentaram numa cerca,
E sorveram muita cerva,
Encarando cada qual uma coruja.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Político (03)

Xilogravura de Kelly Kreis Taglieber